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sábado, 25 de agosto de 2018

Mark Dvoretsky e seu método de treinamento. Parte 2.

Continuando os artigos sobre Dvoretsky veremos agora outra parte importante de seu método de treinamento: a profunda análise dos momentos críticos numa partida de xadrez. Como ele mesmo disse na introdução de um dos seus artigos (que foi utilizado como base para que eu fizesse este...): "Muitas vezes, as partidas de GMs podem parecer com icebergs: nada muito especial para ver, tudo simples e compreensível. Porém, analisando a parte que está embaixo d'água nos faz mudar totalmente de impressão. E isso você não conseguirá observar sem a ajuda de um bom comentarista. (a importância de um treinador, ou de um amigo muito forte em xadrez para estudar). 



O match final do torneio de candidatos de 1992, entre Yusupov e Timman, começou com uma rápida e categórica vitória de Yusupov. Os espectadores presentes, bem como os "especialistas", no centro de imprensa, não noticiaram as finesses que aconteceram na partida! Quando Arthur (Yusupov) veio até mim bastante desgastado após a partida e me expôs os problemas que teve que resolver, tudo ficou bastante claro para mim."







PGN result
[Event "Match cand. Linares (ESP)"]
[Site "?"]
[Date "1992.??.??"]
[Round "1"]
[White "Yusupov, Arthur"]
[Black "Timman, Jan"]
[Result "1-0"]
[PlyCount "67"]
[Source "IB PGN Viewer"]
[SourceDate "2018.08.25"]
[SourceTitle "jra5R_ucK3Vl259E2tsflTvjSog_tRmz8MMxs6D-6CmHv3QhSTgzDyXZg9fWPRr8jMlULSnzsPEnkPSryzhlXQ"]

1. d4 Nf6 2. c4 g6 3. Nf3 Bg7 4. g3 O-O 5. Bg2 c6 6. O-O d5 7. cxd5 cxd5 8. Nc3
Ne4 {Nesse sistema de abertura, um dos jogadores (ou ambos, algumas vezes),
devem ocupar uma casa central (e4 ou e5, nesse caso). Karpov, algumas vezes,
já jogava 8. Ce5, sem desenvolver antes o outro cavalo à c3.} 9. Nxe4 dxe4 10.
Ne5 f6 (10... Qd5 $5) 11. Qb3+ e6 12. Nc4 Nc6 (12... Qxd4 $2 13. Rd1 Qc5 14.
Bf4 {E a dama preta tem problemas para encontrar uma casa segura...}) 13. e3 f5
14. Bd2 Rb8 15. a4 $5 (15. Rac1 Bd7 16. Rfd1 b5 $1 17. Ne5 Nxe5 18. dxe5 b4 $1
{Jogando pela restrição do bispo em d2!} (18... Bxe5 $6 19. Bc3 Bxc3 20. Qxc3
$14)) 15... Rf7 {Pergunta: Qual a reação mais precisa das brancas ao íltimo
lance das pretas? Após, aproximadamente, 30 minutos pensando, Yusupov jogou 16.
Tac1!!. Suspeito que essa notícia possa ter deixado você um pouco surpreso,
afinal, porque dar duas exclamações para um lance tão natural, uma jogada que
até mesmo numa partida de blitz é muito provável que seria realizada? A
questão é que o lance, em si, é apenas a ponta do iceberg. Quando você
consegue ver o que está abaixo, entenderá porque este momento é o "momento
crítico" de toda a partida, pois, foi decisivo para que tudo que veio pela
frente pudesse acontecer. É de muita ajuda iniciar a solução de qualquer
questão posicional com a seguinte pergunta: "O que meu oponente está
pretendendo com sua última jogada?" Nesse caso específico, as pretas planejam
jogar o libertador 16-..., e5! 17-de (17-Cxe5 Bxe5 18-de Dxd2) 17-...Be6! Sem
a torre em f7 isso não seria possível devido à presença da dama branca na
diagonal "a2-g8". Como as brancas poderiam então parar esta ameaça? 16.Tfd1
aparentemente é a solução mais simples, além do mais este lance faz parte do
plano das brancas, preparando o temático Ce5. Entretanto, nesse momento, mover
a torre de f1 seria um erro posicional, que permitiria a dama preta ocupar a
excelente casa d5 sem ser incomodada. (MUITA ATENÇÃO A ESTE COMENTÁRIO
ANTERIOR!!) As pretas não jogaram Dd5 ainda devido à ameaça das brancas
jogarem "f2-f3"! Após a troca de peões em f3 a dama preta precisaria perder um
tempo retrocedendo. Portanto, após 16.Tfd1 Dd5 é bom para o preto. As brancas
poderiam tentar aqui 16.Bc3, seria interessante, mas talvez não seja uma boa
ideia "em geral" fechar uma coluna que pretendemos utilizar com nossa torre...}
16. Rac1 b6 (16... e5 17. Nxe5 $1 Bxe5 (17... Nxe5 $6 18. dxe5 Qxd2 19. Rc7 $18
) 18. dxe5 Qxd2 (18... Nxe5 19. Rc5 Nd3 20. Rd5 $16) 19. Rxc6) 17. f3 $1 {
Quando esse tipo de lance não envolve um ganho de tempo, então, normalmente,
não são tão bons para as brancas. No caso da partida que estamos estudando, o
lance f2-f3 está acobertado por uma ideia tática muito interessante.} exf3 18.
Bxf3 Bb7 19. Bxc6 $1 Bxc6 20. Ne5 Bxa4 $1 {Melhor resposta! Você previu isso?
Nunca é demais lembrar da importância de treinar cálculo em xadrez.} (20... Bb7
21. Nxf7 Kxf7 $16) 21. Nxf7 Bxb3 $2 {As pretas não encontram o caminho correto,
a posição realmente é muito complicada.} (21... Qd7 $1 22. Qa2 Kxf7 23. d5 $5 (
23. Ra1 $6 Bb5 24. Qxa7 Rb7) 23... exd5 24. e4 $1 {A ideia aqui é abrir linhas
para atacar o rei preto que está bastante exposto.} Bb5 25. exd5 $40) 22. Nxd8
Rxd8 23. Rc3 $1 {A partir de agora estamos na fase de "realização técnica da
vantagem material". A única esperança de salvação das pretas é um
contra-ataque com e6-e5 ou conseguir consolidar sua posição posicionando seu
rei mais ao centro, numa espécie de fortaleza. Entretanto, isso não chegou nem
perto de acontecer...} Bd5 24. Rfc1 Bf6 25. Rc8 {Talvez, na jogada 23 das
brancas, você possa ter se perguntado "por que o branco não jogou 23.Tc7? Bom,
jogar a torre na sétima é uma espécie de lei, porém, nessa situação da partida,
o plano branco consiste em trocar um par de torres o que diminuiria bastante
as possibilidades defensivas das pretas, além de facilitar a ocupação da mesma
sétima fila pela torre remanescente.} Bb7 26. R8c7 $1 {Mas, as brancas não
queriam trocar as torres???? Sim, mas nesse caso os bispos pretos controlariam
as casas de invasão, portanto, vamos ganhando tempos por aqui! (Yusupov deve
ter pensado isso, certeza!)} Be4 27. Bb4 $1 {Atividade! Atividade!} g5 28. Be7
Bxe7 29. Rxe7 f4 30. gxf4 gxf4 31. exf4 a5 32. Kf2 Bf5 33. Rb7 b5 34. Rcc7 {
Ok! Cá estamos! Ambas as torres estão na sétima numa situação bem melhor do
que em momentos anteriores. As pretas abandonaram.} 1-0

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quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Mark Dvoretsky e seu método de treinamento. Parte 1.

                    Escrever a respeito de qualquer pessoa é sempre muito difícil, pois, corremos o risco de omitir alguma informação importante ou de, até mesmo, passar alguma informação equivocada devido à desatenção ou simplesmente falha de interpretação. É o risco que se corre... Resolvi escrever alguns artigos aqui no blog sobre uma grande personalidade do mundo do xadrez, considerado pela maioria dos jogadores como o "maior treinador da história". Trata-se do russo Mark Dvoretsky, nascido em Moscou, 1947.


                   Dvoretsky não era apenas um grande treinador, ele também era um fortíssimo MI, título conquistado em 1975. É bom citar algumas conquistas de Dvoretsky antes de obter o título de MI: Campeão de Moscou, 1973; quinto lugar (empatado) no campeonato soviético de 1974; campeão do "Wijk aan zee masters", 1975, além de uma excelente campanha do campeonato soviético neste mesmo ano. Tratava-se, claramente, de um MI com força de GM! Apesar de ser um jogador muito forte, Dvoretsky resolveu se afastar das competições (como jogador) e dedicar-se a desenvolver novos talentos através do que ele acreditava ser o melhor método para preparação de jogadores. A busca constante pela verdade enxadrística, a paixão pelas posições com poucas peças, os finais artísticos, eram características do método Dvoretsky. 
                   
                  Os resultados dos seus "alunos" rapidamente começaram a aparecer, ele tinha a fama de transformar os "fortes +2.200" em mestres rapidamente e os GMs em campeões!! Nada mal para um início. Para se ter uma ideia, já treinaram com Dvoretsky jogadores como Kasparov, Anand, Topalov, Bareev, Lautier, Van Wely, Svidler, Chekhov, Dolmatov, Dlugy, etc... Porém, sem sombra de dúvidas, quem mais se fez presente na vida de treinador de Dvoretsky foi Arthur Yusupov, que chegou a ser número 3 no ranking mundial e que nunca escondeu que atribui seu sucesso às sessões de treinamento que teve com Mark. 

                  Nessa primeira parte do artigo vamos mostrar um exemplo do método de treinamento utilizado pelo Dvorestky. Lembro que, ao tentar analisar essa posição, os sentimentos de angústia, frustração, raiva e alegria estavam todos, simultaneamente, presentes durante a busca pelos lances corretos e, apesar de ser uma posição "simples", aprendi demais com essa análise. 





PGN result
[Event "Candidates (Women) sf2"]
[Site "Vilnius"]
[Date "1980.??.??"]
[Round "8"]
[White "Alexandria, Nana"]
[Black "Litinskaya, Marta I"]
[Result "1/2-1/2"]
[BlackElo "2280"]
[ECO "C55"]
[EventCountry "URS"]
[EventDate "1980.09.??"]
[EventRounds "12"]
[EventType "match"]
[FEN "5rk1/pp4p1/3p4/2p1p3/2P1P3/P2PP1PR/1P6/6K1 b - - 0 40"]
[PlyCount "46"]
[SetUp "1"]
[Source "ChessBase"]
[SourceDate "1999.07.01"]
[WhiteElo "2335"]

40... Rf3 {A torre preta está bastante ativa. Sabemos que nesse tipo de final
a atividade é o mais importante dos fatores já que a vantagem material das
brancas está prestes a desaparecer. Aqui fica a questão: qual o plano das
brancas para evitar a perda de seus peões centrais e/ou da ala da dama?} 41.
Rh2 $1 {A melhor opção! A ideia é criar uma fortaleza e ao mesmo tempo manter
a possibilidade de invasão pela ala da dama após um possível "b4".} Rxe3 42.
Rd2 Rxg3+ {Incrivelmente essa não é a melhor jogada, pois a torre preta abre
mão de sua atividade e permite às brancas realizarem seu contrajogo. Vamos
voltar esta jogada e seguir com as análises do Dvoretsky...} (42... Re1+ $1 {
Grande ideia! A torre preta agora vai ficar criando ameaças no campo branco e
ao mesmo tempo restringindo a atividade da torre branca! Palavra chave nos
finais de torre: atividade!} 43. Kf2 Rb1 44. Kf3 Kf7 45. Kg4 Kg6 46. Kh4 {Aqui
temos outra situação importante de lembrar nesse tipo de final: Quanto menos
espaço para avançar o rei adversário tiver é melhor para quem está se
defendendo. Tem que ser levado em conta também os possíveis finais de peões e,
para as brancas, um método defensivo para uma provável perda de seu peão "g".
Essas transformações dos finais é que fazem com que essa parte do jogo seja
tão difícil...} (46. Rc2) 46... a6 (46... a5 47. Kg4 (47. g4 $2 Rh1+ 48. Kg3
Kg5 $17) 47... b6 (47... a4 $2 48. Kh4 b6 49. Kg4 Rh1 50. Rc2 Rd1 51. Rc3 Rd2
52. b3) 48. Kh4 Rc1 49. Kg4 Rh1 {Zugzwang é sempre um plano nessas posições
com poucas jogadas defensivas..} 50. b4 (50. Rc2 $1 Rd1 51. Rc3 Rd2 52. a4 $3 {
Uma grande jogada! (e difícil demais de achar!) Totalmente paradoxal, pois,
dará atividade ao adversário e deixa a própria torre passiva! Mas, as coisas
não são tão simples em xadrez, ainda bem.} (52. Rb3 a4 $1 53. Rxb6 Rxd3 54. Ra6
Kf6 55. Rxa4 Re3 $11 (55... Rb3)) 52... Rxb2 53. Ra3 Rb4 54. Kh4 Kh6 (54... Rb1
55. Kg4) 55. Kg4 g6 56. Kh4 g5+ 57. Kg4 Kg6 58. Kf3 Kh5 59. g4+ Kg6 (59... Kh4
$4 60. Ra1 {E vai levar mate...}) 60. Ra1 $11 {Por incrível que pareça essa
posição é de igualdade!! O rei preto não pode se afastar muito do peão "g5"
senão a torre branca vai atrás dele criando contra-chances, mesmo ao preço do
peão a4. Atividade!}) (50. Kf3 Kg5 51. Kg2 Rb1 52. Kf3 Rf1+ 53. Kg2 (53. Rf2 $2
Rxf2+ 54. Kxf2 Kg4 $19 55. Kg2 a4) 53... Rf6 $1 54. Rd1 (54. Kh3 Rf3) 54... Kg4
55. Rh1 g5 $19) 50... Rb1 (50... Ra1)) 47. Kg4 (47. a4 $2 Ra1) 47... b5 48.
cxb5 axb5 49. Rc2 Kf6 {E aqui o branco precisa se preocupar com seu peão de
"e4", por incrível que pareça, portanto 50.Rh4 não seria bom!! (Se afasta de
e4!!)} 50. Kf3 Kg5 {Etc... Etc... Vamos voltar a partida principal.}) 43. Kf2
Rg4 (43... Rh3 44. Kg2) 44. b4 Rf4+ 45. Kg2 Rf7 46. Rb2 cxb4 47. axb4 b5 48.
cxb5 Rb7 49. Ra2 Rxb5 50. Rxa7 Rxb4 51. Kf3 Rd4 52. Ra3 Kf7 53. Kg4 Kf6 54. Rb3
Ra4 55. Rb1 Ra3 56. Rf1+ Ke6 57. Rf3 d5 58. exd5+ Kxd5 59. Re3 Ra4+ 60. Kf5
Rf4+ 61. Kg6 Kd4 62. Rg3 Rf1 63. Kxg7 {Um belo jogo, com muitos ensinamentos
de finais de torres e de peões também!} 1/2-1/2

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segunda-feira, 20 de agosto de 2018

III Torneio da AXBV

Uma manhã histórica hoje na Biblioteca Municipal Luiz Brasil, em Garanhuns. A Academia de Xadrez Byron Veras iniciou um novo ciclo no xadrez garanhuense voltando justamente ao lugar onde tudo começou na década de 1980!! O torneio foi realizado pela AXBV com o apoio da Prefeitura Municipal de Garanhuns, Secretaria de Educação e Secretaria de Juventude, Esportes e Lazer. O evento foi bastante prestigiado e contou com a participação de 29 enxadristas (o limite de vagas era 30). Na ocasião tivemos a presença ilustre da Sra. Edilene Soares Cordelista, coordenadora da biblioteca Luiz Brasil e madrinha da AXBV.

Gostaríamos de registrar também nossos agradecimentos  à Secretária de Educação Eliane Simões Vilar, ao secretário de Juventude, Esportes e Lazer, Carlos Eugênio, ao Professor Édson Barros Lopes e ao servidor municipal Rodolfo Cardoso, que contribuíram com a realização deste evento. 

Vale destacar a presença de equipe feminina da cidade de São João e dos amigos Luziano Pereira e Lúcio Flávio, que representaram o estado de Alagoas! Abaixo, algumas fotos do evento!